Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso."
Caio Fernando Abreu
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
NÃO DEIXE O AMOR PASSAR
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Em despedida: proibido o pranto
Como esses santos homens que se apagamSussurando aos espíritos. "Que vão...",Enquanto um dos amigos amargosDizem: "ainda respira"." E outros: não."
Nos desolvamos sem fazer ruído,Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,Fora profanção nossa ao ouvidoDos leigos descerrar todo este encanto.
O terremo traz terro e morteE o que ele faz expõe toda esa gente,Mas a trepidação do firmamentoEmbora ainda maior, é inocente.
O amor desses amantes sublunares( cuja almas é só sentidos) não resisteÁ ausência, que transforma em singularesOs elementos em que ele consiste
Mas a nós ( por uma afeição tão alta,Que nem sabemos do que seja feita,Interssegurando o pensamento)Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.
As duas almas que são ujma sóEmbora deva ir, não sofrerãoUm rompimento, mas uma expansão,Caomo ouro reduzido a aéreo pó
Se são duas,o são similarmenteAs duas pernas do compasso:Tua alma é a perna fixa e aparenteInércia, mas se move a cada passo
Da outra, e se no centro quieta jaz,Quando se distancia aquela,essaSe inclina atentamente e vai-lhe atrás,E se indireita quando regressa.
Assim serás pra mim que pareçoComo a outra perna obliquamente andarTua firmeza faz-me, circular,Encontrar meu finalem meu começo.
DONNE, john.In.CAMPOS,Augusto de.
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